monólogo curto

     Eu não sei no que acredito, na verdade. Desde criança, como brasileirinho padrão, fui criado na barra da saia da igreja, mas com o passar do tempo as perguntas chegam e você se responde: sei lá, vei. Um professor de história do ensino médio - aquela figura recorrente do professor despojado que foge da regra e te faz realmente se importar com o que ele diz - contou pra gente, certo dia, que não era católico ou ateu, mas sim deísta. Ele falou muito por cima, eu pesquisei no Google também muito por cima, mas pensei: acho que é isso (?). Eu entendi que seria, na verdade, não acreditar em toda as alegorias possíveis, mas apenas naquele ser/força/coisa primordial, a vontade não proferida do universo como um todo. Acho que a ideia de pensar que não há absolutamente nada me parece tão verdadeira quanto desesperadora, então fico com a opção b) de que na verdade há um movimento inicial, uma linha de energia, que rege tudo e equilibra as coisas. Isso não tem preferências, não se foca em indivíduos, não vai mudar as coisas por prece, apenas é, e você que torça que o apenas ser seja apenas ser a seu favor, no que quer que seja. A primeira peça da sequência de dominós, daquelas que cria imagens belíssimas e ocupa galpões inteiros, foi empurrada lá no big bang, a  gente não sabe qual a disposição das peças, se é que eles estão dispostas, mas uma derruba a outra que derruba a outra que derruba a outra que derruba as outras. A ideia de karma também se embola nisso tudo, uma compensação cósmica de tudo que é positivo e negativo terminando sempre no zero neutro.Eu me apeguei muito a isso por um certo tempo, mas acho que o imediatismo da coisa, ou a falta dele, no caso, faz com que o karma seja na verdade mais parecido com uma crença do que com uma lei termodinâmica, então a gente volta pro começo: sei lá, vei.

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